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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

[TdC] A troca do dom do corpo cria autêntica comunhão


Caríssimos, nesta semana, voltamos à nossa coluna sobre  Teologia do Corpo. Nesta série, queremos apresentar o ensino do Magistério sobre o sentido da sexualidade no plano de Deus. O presente post começamos a  tratar da troca do dom do corpo cria autêntica comunhão.

“A situação descrita [em Gn 2,23-25] revela a experiência beatificante do significado do corpo que, no âmbito do mistério da criação, o homem atinge, por assim dizer, na complementaridade do que é masculino e feminino. Todavia, nas raízes desta experiência deve haver a liberdade interior do dom, unida, sobretudo à inocência; a vontade humana é originariamente inocente e, deste modo, é facilitada a reciprocidade e troca do dom do corpo, segundo a sua masculinidade e feminilidade, como dom da pessoa. Consequentemente, a inocência atestada em Gênesis 2, 25 pode definir-se como inocência da experiência recíproca do corpo. A frase “estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas não sentiam vergonha”, exprime exatamente esta inocência na recíproca ‘experiência do corpo’, inocência que inspirava a interior troca do dom da pessoa, que, na relação recíproca, realiza em concreto o significado esponsal da masculinidade e da feminilidade. Assim, portanto, para compreender a inocência da mútua experiência do corpo, devemos procurar esclarecer em que coisa consiste a inocência interior na troca do dom da pessoa. Tal troca constitui, de fato, a verdadeira fonte da experiência da inocência.

Podemos dizer que a inocência interior (isto é, a retidão de intenção) na troca do dom consiste numa recíproca ‘aceitação’ do outro, a corresponder à essência mesma do dom; deste modo, a doação recíproca cria a comunhão das pessoas. Trata-se, por isso, de ‘acolher’ o outro ser humano e de ‘aceitá-lo’, exatamente porque nesta relação mútua, de que fala Gênesis 2, 23-25, o homem e a mulher se tornam dom um para o outro, mediante toda a verdade e a evidência do seu próprio corpo, na sua masculinidade e feminilidade. Trata-se, portanto, de tal ‘aceitação’ ou ‘acolhimento’ que exprima e sustente na recíproca nudez o significado do dom e por isso aprofunde a dignidade recíproca dele. Tal dignidade corresponde profundamente a ter o Criador querido (e continuamente quer) o ser humano, masculino e feminino, ‘para si mesmo’. A inocência ‘do coração’, e, por conseguinte, a inocência da experiência significa participação moral no eterno e permanente ato da vontade de Deus.

O contrário de tal ‘acolhimento’ ou ‘aceitação’ do outro ser humano, como dom, seria privação do dom mesmo e por isso mudança e até redução do outro a ‘objeto para mim mesmo’ (objeto de concupiscência, de ‘apropriação indevida’, etc.). [...] É preciso, contudo, já aqui, no contexto de Gênesis 2, 23-25, verificar que esse extorquir ao outro ser humano o seu dom (à mulher por parte do homem e vice-versa) e reduzi-lo interiormente a puro ‘objeto para mim’, deveria mesmo assinalar o princípio da vergonha. Esta, na verdade, corresponde a uma ameaça feita ao dom na sua pessoal intimidade, e testemunha o desabar interior da inocência na experiência recíproca.

Segundo Gênesis 2, 25, “o homem e a mulher não sentiam vergonha”. Isto permite-nos chegar à conclusão que a troca do dom, na qual participa toda a humanidade deles — alma e corpo, feminilidade e masculinidade — se realiza conservando a característica interior (isto é precisamente a inocência) da doação de si e da aceitação do outro como dom. Estas duas funções da mútua troca estão profundamente ligadas dentro de todo o processo do ‘dom de si’: o dar e o aceitar o dom compenetram-se: de maneira que o dar mesmo, torna-se aceitar; e o aceitar, transforma-se em dar”.

(continua...)
[beato João Paulo II, Alocução ‘Il dono del corpo’, 06.II.1980].

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

[TdC] A unidade original do homem e da mulher na humanidade


Caríssimos, nesta semana, voltamos à nossa coluna sobre  Teologia do Corpo. Nesta série, queremos apresentar o ensino do Magistério sobre o sentido da sexualidade no plano de Deus. O presente post  tratamos da unidade original entre homem e mulher. Outras postagens que tratam do assunto podem ser lidas aqui  e aqui .

“As palavras do livro do Gênesis “não é conveniente que o homem esteja só” (Gn 2,18) são quase um prelúdio da narrativa da criação da mulher. Com esta narrativa, o sentimento da solidão original entra a fazer parte do significado da unidade original, cujo ponto-chave parecem ser precisamente as palavras de Gênesis 2, 24, a que se refere Cristo na sua conversa com os fariseus: “O homem deixará o pai e a mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão os dois uma só carne” (Mt 19,5). Se Cristo, referindo-se ao ‘princípio’, cita estas palavras, convém-nos precisar o significado dessa unidade original, que mergulha as raízes no fato da criação do homem como macho e fêmea.

A narrativa do capítulo primeiro do Gênesis não conhece o problema da solidão original do homem: o homem, de fato, desde o princípio é “macho e fêmea”. O texto javista do capítulo segundo, pelo contrário, autoriza-nos em certo modo a pensar primeiro, somente no homem enquanto, mediante o corpo, pertence ao mundo visível, mas ultrapassando-o; depois, faz-nos pensar no mesmo homem, mas através da duplicidade do sexo. Corporeidade e sexualidade não se identificam completamente. Embora o corpo humano, na sua constituição normal, traga em si os sinais do sexo e seja, por sua natureza, masculino ou feminino, todavia o fato de o homem ser ‘corpo’ pertence à estrutura do sujeito pessoal mais profundamente que o fato de ele ser na sua constituição somática também macho ou fêmea. Por isso, o significado da solidão original, que pode referir-se simplesmente ao ‘homem’, é substancialmente anterior ao significado da unidade original; esta última, de fato, baseia-se na masculinidade e na feminilidade, quase como sobre duas diferentes ‘encarnações’, isto é, sobre dois modos de ‘ser corpo’ do mesmo ser humano, criado à imagem de Deus (cf. Gn 1,27). [...]

Assim pois, Deus-Javé diz: “Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele” (Gn 2,18). [...]  A seguir lemos: “Então o Senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem” (Gn 2,21-22). [...]

A mulher é feita “com a costela” que Deus-Javé tirara ao homem. Considerando o modo arcaico, metafórico e imaginoso, de exprimir o pensamento, podemos estabelecer tratar-se aqui de homogeneidade de todo o ser de ambos; tal homogeneidade diz respeito sobretudo ao corpo, à estrutura somática, e é confirmada também pelas primeiras palavras do homem à mulher recém-criada: “Esta é realmente o osso dos meus ossos e a carne da minha carne” (Gn 2, 23)[1]. Apesar disso, as palavras citadas referem-se também à humanidade do homem-macho. Devem ler-se no contexto das afirmações feitas antes da criação da mulher, nas quais, embora não existindo ainda a ‘encarnação’ do homem, ela é definida como “auxiliar semelhante a ele” (cf. Gn 2, 18.20). Assim, pois, a mulher foi criada, em certo sentido, sobre a base da mesma humanidade.

A homogeneidade somática, não obstante a diversidade da constituição ligada à diferença sexual, é tão evidente que o homem (macho), despertando do sono genético, a exprime imediatamente, ao dizer: “Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem” (Gn 2,23). Deste modo o homem (macho) manifesta pela primeira vez alegria e até exaltação, de que anteriormente não tinha motivo, por causa da falta dum ser semelhante a si. A alegria para o outro ser humano, para o segundo ‘eu’, domina nas palavras do homem (macho) pronunciadas à vista da mulher (fêmea). Tudo isto ajuda a estabelecer o significado pleno da unidade original”. 

[beato João Paulo II, Alocução ‘L’unità originaria’, 07.XI.1979].



[1] É interessante notar que para os antigos Sumérios o sinal aunei forme para indicar o substantivo ‘costela’ era o mesmo que indicava a palavra ‘vida’. Quanto, portanto, à narrativa javista, segundo certa interpretação de Gn. 2, 21, Deus cobre a costela de carne (em vez de cicatrizar a carne no seu lugar) e deste modo «forma» a mulher, que tem origem da «carne e dos ossos» do primeiro homem (macho). Na linguagem bíblica esta é uma definição de consaguineidade ou incorporação na mesma descendência (por exemplo, cf. Gn. 29, 14): a mulher pertence à mesma espécie do homem, distinguindo-se dos outros seres vivos anteriormente criados.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

[TdC] O homem-pessoa torna-se dom na liberdade do amor

Caríssimos, nesta semana, voltamos à nossa coluna sobre  Teologia do Corpo. Nesta série, queremos  apresentar o ensino do Magistério sobre o sentido da sexualidade no plano de Deus. O presente post trata da capacidade do homem em ser dom para o próximo na sua capacidade esponsal.

“A revelação, e ao mesmo tempo a descoberta original do significado ‘esponsal’ do corpo, consistem em apresentar o ser humano, homem e mulher, em toda a realidade e verdade do seu corpo e sexo (“estavam nus”) e ao mesmo tempo na plena liberdade de qualquer constrição do corpo e do sexo. Disto parece dar testemunho a nudez dos que foram nossos primeiros pais, interiormente livres de vergonha. Pode-se dizer que, embora criados pelo Amor, isto é, dotados no próprio ser de masculinidade e feminilidade, ambos estão ‘nus’ porque estão livres com a liberdade mesma do dom. Esta liberdade está precisamente na base do significado esponsal do corpo. O corpo humano, com o seu sexo, e a sua masculinidade e feminilidade, visto no mistério mesmo da criação, é não só fonte de fecundidade e de procriação, como em toda a ordem natural, mas encerra desde ‘o princípio’ o atributo ‘esponsal’, isto é, a capacidade de exprimir o amor: exatamente aquele amor em que o homem-pessoa se torna dom e — mediante este dom — pratica o sentido mesmo do seu ser e existir. Recordamos agora o texto do último Concílio, onde se declara que o homem é a única criatura no mundo visível que Deus quis “por si mesma”, acrescentando que este homem “não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo”[1].

A raiz da nudez original isenta de vergonha, da qual nos fala Gênesis 2, 25, deve-se procurar precisamente naquela verdade completa sobre o homem. Homem e mulher, no contexto do seu ‘princípio’ beatificante, estão livres com a mesma liberdade do dom. De fato, para poderem manter-se na relação do “dom sincero de si” e para se tornarem um tal dom um para o outro, através de toda a sua humanidade feita de feminilidade e masculinidade (também em relação com aquela perspectiva de que fala Gênesis 2, 24), eles devem estar livres precisamente desta maneira. Entendemos aqui a liberdade sobretudo como domínio de si mesmos (autodomínio). Sob este aspecto, ela é indispensável para que o homem possa “dar a sua pessoa”, para poder tornar-se dom, para (referindo-nos às palavras do Concílio) poder “encontrar-se plenamente” por meio de um “dom sincero de si”. Assim, as palavras “estavam ambos nus mas não sentiam vergonha” podem e devem entender-se como revelação - e ao mesmo tempo descoberta — da liberdade, que torna possível e qualifica o sentido ‘esponsal’ do corpo”. 

[beato João Paulo II, Alocução ‘L’uomo-persona diventa’, 16.X.1980].


[1]  “Mais ainda, quando o Senhor Jesus pede ao Pai “que todos sejam um” (Jo. 17, 21-22), sugere abrindo perspectivas inacessíveis à razão humana — que há certa analogia entre a união das pessoas divinas entre si e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade. Esta semelhança torna manifesto que o homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo” (Gaudium et Spes § 24).

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

[TdC] A redenção de Cristo na relação homem-mulher


Caríssimos, nesta semana, voltamos à nossa coluna sobre  Teologia do Corpo. Neste post, continuaremos a apresentar o ensino do Magistério sobre o sentido da sexualidade no plano de Deus  pegando a linha de pensamento do post anterior: qual o caminho para curar as distorções nas relações entre homem e mulher?

“Ao longo de todo o Antigo Testamento, configura-se uma história de salvação que joga simultaneamente com a participação do masculino e do feminino. [...] “Vós que fostes batizados em Cristo fostes revestidos de Cristo... não há mais homem nem mulher” — escreve São Paulo aos Gálatas (3,27-28). O Apóstolo não declara aqui que deixou de existir a distinção homem-mulher, distinção que alhures diz pertencer ao projeto de Deus. O que, ao invés, quer dizer é o seguinte: em Cristo, a rivalidade, a inimizade e a violência, que desfiguravam a relação do homem e da mulher, são superáveis e estão superadas. Neste sentido, mais do que nunca é reafirmada a distinção do homem e da mulher, que aliás acompanha até ao fim a revelação bíblica. Na hora final da história presente, quando se vislumbram no Apocalipse de João “um novo céu” e “uma nova terra” (Ap 21,1), é apresentada em visão uma Jerusalém feminina “bela como noiva adornada para o seu esposo” (Ap 21,2). A própria revelação termina com a palavra da Esposa e do Espírito que imploram a vinda do Esposo: “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22,20).

O masculino e o feminino são, portanto, revelados como pertencentes ontologicamente à criação e, por conseguinte, destinados a perdurar além do tempo presente, evidentemente numa forma transfigurada. Desse modo caracterizam o amor que “não terá fim” (1Cor 13,8), embora se torne caduca a expressão temporal e terrena da sexualidade, ordenada para um regime de vida marcado pela geração e pela morte. Dessa forma de existência futura do masculino e feminino, o celibato pelo Reino quer ser profecia. Para os que o vivem, antecipa a realidade de uma vida que, embora permanecendo a de um homem e de uma mulher, deixará de estar sujeita às limitações presentes da relação conjugal (cf. Mt 22,30). Para os que vivem a vida conjugal, também o seu estado constitui referência e profecia da perfeição que a sua relação encontrará no encontro face a face com Deus.

Distintos desde o início da criação e permanecendo tais no próprio coração da eternidade, o homem e a mulher, inseridos no mistério pascal de Cristo, deixam de conceber a sua diferença como fonte de discórdia, a superar com a negação ou com o nivelamento, mas como uma possibilidade de colaboração, que devem cultivar no recíproco respeito da distinção. Daqui se abrem novas perspectivas para uma compreensão mais profunda da dignidade da mulher e do seu papel na sociedade humana e na Igreja.”

[CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no Mundo, § 9 e §12 ]

domingo, 1 de julho de 2012

[TdC] Teologia do Corpo

Caríssimos,

Começaremos, a partir de agora, uma coluna sobre Teologia do Corpo que será postada todas as sextas-feiras. Percebemos que, diante da nossa sociedade marcada pela ‘revolução sexual’ e pela inversão das verdades concernentes ao plano de Deus para a sexualidade humana, é preciso que conheçamos cada vez mais o que ensina a nossa fé acerca das verdades eternas relacionadas à sexualidade humana. 

Neste post gostaríamos de explicar sucintamente o que seria objeto dessa coluna (que será identificada a partir de agora por [TdC]), a fim de esclarecer e facilitar o entendimento daqueles que não tem nenhum conhecimento do assunto. 

O termo ‘Teologia do Corpo’ foi cunhado a partir da consolidação de um magistério baseado na Bíblia e na Sagrada Tradição sobre o significado teológico do corpo e da sexualidade humana. O conjunto de magistério sobre esse tema  abrange especialmente as catequeses de quarta-feira de 1979 a 1984 ministradas pelo Beato João Paulo II, mas também os documentos da Congregação da Doutrina da Fé sobre o assunto, bem como todo o magistério anterior  e posterior sobre a sexualidade que  neste termo encontra seu lugar.

O Apostolado Coragem (Courage Apostolate) dedica atenção especial a esse tema na formação dos seus membros, por isso, entendemos que também aqui no blog seria essencial termos uma formação perene sobre o assunto, porque compreender a sexualidade como Deus a compreende é um caminho para vivermos melhor a castidade que é um chamado que Deus faz através da Sua Igreja a todos os homens, de acordo com seu estado de vida (solteiros, celibatários ou casados).

Queremos conhecer e entender os desígnios de Deus sobre a sexualidade humana para que não nos aconteça como a profecia de Oseias alerta: “O meu povo se perde por falta de conhecimento” (Os 4,6) e sobretudo para entendermos melhor a nos relacionarmos com Nosso Senhor e com o nosso próximo que foi criado, como nós, à sua imagem e semelhança.

Queremos, sobretudo, conhecer mais sobre esse tema, pois, como nos ensina Tertuliano, um dos padres da Igreja: “caro salutis est cardo - a carne é o eixo da salvação” e, porque, como nos ensina o Catecismo da Igreja Católica: “Cremos em Deus, que é o criador da carne; cremos no Verbo feito carne para redimir a carne; cremos na ressurreição da carne, consumação da criação e redenção da carne" (CIC § 1015).

Assim, queremos, por fim, nos aprofundarmos nesse assunto porque o cristianismo é a religião do Verbo que se fez carne, Jesus Cristo, nosso Senhor e Redentor: por Ele e nEle, o mistério de Deus tornou-se revelado num corpo humano, carne da nossa carne.

Esperamos com isso poder esclarecer a tantos que sofrem com AMS, mas também tantos outros que nos leem e que gostariam de conhecer e aprofundar mais conosco sobre o desígnio maravilhoso de Nosso Senhor sobre a sexualidade do homem, sua criatura favorita e a única com o qual Ele escolheu se relacionar pessoalmente.