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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

[Esp] Chamados a um celibato não escolhido

[O Catecismo da Igreja Católica, nos parágrafos 2358-2359, propõe que "As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição". Para muitas pessoas, no entanto, esse chamado à castidade dirigido aos homossexuais não fica claro. Muitos se perguntam: 'Então eu sou chamado ao celibato? Mas eu tenho vontade de me casar!'




Em nosso apostolado, ou seja, no Courage, os membros são chamados a viver a castidade segundo o ensinamento da Igreja Católica.  Muitas perguntas nos são dirigidas sobre o assunto. Por isso, achamos oportuno reproduzir aqui o seguinte artigo elucidativo, publicado na famosa revista católica First Things e intitulado "Chamados a um celibato não escolhido", no qual Aaron Taylor apresenta com clareza o pensamento da Igreja Católica a respeito do tema,  solidamente embasado no Magistério Católico.


Nosso Senhor, estando próxima Sua Paixão, disse aos seus discípulos: "Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi" (Jo 15,16). Aaron Taylor deixa claro que o chamado, mesmo nas situações mais adversas, é sempre iniciativa de Deus e não do homem, e que cabe a esse livremente abraçar ou recusar o chamado, atendendo ou não ao apelo do Senhor ]. 


A crise na vida familiar que tem convulsionado o Ocidente desde os anos 60 do século passado fez com que a Igreja, nos últimos tempos, se tenha, em grande medida, dedicado a apresentar uma visão coerente e convincente do matrimônio cristão, o que se justifica totalmente.

Mas isso não deve levar os cristãos a minimizar a nobreza da vida celibatária, que a tradição cristã sempre teve na mais alta consideração. É particularmente importante ter isto presente, no momento em que a Igreja se esforça por encontrar a melhor forma de ajudar as pessoas homossexuais a serem santas.

Além do óbvio exemplo do próprio Jesus, São Paulo foi o primeiro a promover o celibato como uma forma de “dedicação indivisa ao Senhor”[1]. São Paulo escreveu numa época muito anterior à existência de monges ou mosteiros, e dirige-se tanto a homens como a mulheres. E não se refere ao celibato sacerdotal ou à ‘vida consagrada’. Está a referir-se ao valor de uma vocação de celibato vivido no meio do mundo.

A ideia de que os homossexuais são chamados ao celibato soa estranha para muitos cristãos hoje. Nós tendemos a associar o celibato com uma escolha consciente de renúncia ao casamento. Por outras palavras, só poderia realmente ter uma vocação celibatária, alguém que fosse primeiro atraído para o casamento, e depois decidisse renunciar a ele como uma possibilidade para si. O Papa Bento XVI expressou um pensamento nesta linha em A Luz do Mundo:

“A homossexualidade não é compatível com o sacerdócio. Senão, o celibato como renúncia também não teria sentido. Seria um grande perigo se o celibato se tornasse numa oportunidade para introduzir no sacerdócio pessoas que não se querem casar”[2].

Deixando agora de lado qualquer discussão sobre a adequação dos homossexuais para o ministério sacerdotal[3], deve ser salientado que a visão baseada na escolha, aqui expressa por Bento XVI, não é o único caminho que a tradição cristã tem à sua disposição para pensar sobre a vida celibatária em geral.

Dirigindo-se a mulheres que sabiam que jamais poderiam vir a casar, porque a vida de muitos dos homens de seu país tinha sido dizimada pela Segunda Guerra Mundial, o Papa Pio XII afirmou o seguinte, em 1945:

“Quando se pensa nas mulheres que renunciam voluntariamente ao matrimônio para se consagrarem a uma vida mais elevada de contemplação, sacrifício e de caridade, logo aflora aos lábios uma palavra luminosa: a vocação! Esta vocação, este amoroso chamamento faz-se ouvir de maneiras muito diversas, como infinitamente distintas são as modulações da voz divina: convites irresistíveis, inspirações que impelem afetuosamente, suaves impulsos.
Mas também a jovem cristã que fica sem se casar, mau grado seu, mas que crê firmemente na Providência do Pai Celeste, reconhece nas vicissitudes da vida a voz do Mestre: “O Mestre está aqui e chama-te!” (João 11, 28). Ela responde; ela renuncia ao amado sonho da sua adolescência e da sua juventude: ter um companheiro fiel na vida, formar uma família. E, na impossibilidade do matrimônio, vislumbra a sua vocação, e então, com o coração desfeito, mas submisso, também ela se consagra totalmente às obras de beneficência mais nobres e multiformes”[4].

Para Pio XII, o significado do celibato não está na nossa escolha de um estado de vida, mas na escolha de Deus sobre nós. Para um cristão atraído por alguém do mesmo sexo, a questão da sua própria escolha é irrelevante. A questão importante é o que Deus escolheu para ele. Claro que o celibato, tal como o casamento, exige o consentimento, não pode ser imposto, deve ser abraçado em liberdade. Mas a chave para um entendimento correto do celibato não é a livre escolha, mas sim a resposta livre: a resposta livre e obediente ao chamamento divino.

Este apelo pode manifestar-se de diferentes maneiras. Muitos podem sentir este chamamento como um suave murmúrio que ressoa aos seus ouvidos, quando, na oração, procuram discernir qual o estado de vida – entre muitos possíveis – ao qual são chamados.

No entanto, para outros – tal como refere Pio XII – o chamamento divino é percebido no meio e através das circunstâncias da vida de cada um, que muitas vezes deixam a pessoa com pouca margem de escolha nessa matéria. Mas, em ambos os casos, a vocação tem a mesma dignidade, contanto que seja abraçada com a mesma generosidade por parte da pessoa que Deus chama.

Escusado será dizer, também, que as bênçãos ligadas à vocação do celibato – a oportunidade de desfrutar de uma união mais profunda nesta vida com Cristo, o Divino Esposo – estão, em princípio, abertas a todos aqueles que levam uma vida casta e celibatária, independentemente do modo como tenham vindo a tomar consciência da sua vocação.

Este é um ponto importante. Os críticos do ensinamento da Igreja alegam muitas vezes que ela pede aos homossexuais que desistam da possibilidade de um relacionamento íntimo, em troca de uma vida de infelicidade e solidão. No entanto, quando se considera que o que realmente se oferece em troca é a união com Deus através da castidade, o ‘negócio’ começa a parecer logo mais atraente!

Infelizmente, as igrejas são muitas vezes lugares pouco acolhedores para homossexuais. Isto não devia acontecer. Dado a alta consideração da Igreja, historicamente comprovada, para com aqueles que levam uma vida celibatária e casta, é normal que a Igreja possa ser o lar acolhedor de um grupo de pessoas a quem ela mesma chama a levar este gênero de vida tendo em conta a sua orientação sexual.

Frequentemente a Igreja culpa os media por deturparem os seus ensinamentos, e fazendo-a parecer anti-gay. Embora isso possa acontecer, há que reconhecer que muitas vezes a culpa disso é dos católicos. Os seus pronunciamentos limitam-se muitas vezes à denúncia da incorreção das práticas homossexuais e à crítica do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Mas a verdade é que não tem que ser assim.

A Igreja, de facto, tem uma mensagem muito especial e positiva para os homossexuais: “O Mestre está aqui e chama-te!” (Jo 11,28).





Notas complementares [pelo padre tradutor português]



1) Na Igreja, estas pessoas estarão com toda a naturalidade, sem, evidentemente, constituir um grupo, e sem se distinguirem em nada de outras pessoas que, pelos mais diversos motivos, também não se casaram, e que igualmente procuram santificar-se na continência e na castidade.

2) Em diversas intervenções recentes, o Papa Francisco terá pretendido corrigir a acentuação na abordagem negativa e crítica das práticas homossexuais, de resto bem explícita no Catecismo da Igreja Católica (n. 2357) e no Youcat (n. 65).

É verdade que o Santo Padre ainda não explicitou a alternativa de santidade proposta a essas pessoas que, no dizer do mesmo Catecismo da Igreja Católica, “experimentam uma atração sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo” (n. 2357). Mas certamente não deixará de o fazer.

De resto, essa alternativa está já bem delineada no Catecismo da Igreja Católica, num texto em que a verdade e a caridade se abraçam harmoniosamente:

“Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão, objetivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã” (n. 2358 e 2359).

E o mesmo no Youcat:

Todo o ser humano que existe na Terra provém da união de uma mãe e um pai. Por isso, para algumas pessoas é uma experiência dolorosa não se sentirem eroticamente atraídas pelo sexo oposto e terem de sentir, numa união homossexual, a falta da fecundidade física, como é próprio da natureza do ser humano e da divina ordem da Criação. Frequentemente, contudo, Deus chama a Si por vias inusitadas: uma carência, uma perda ou uma ferida - assumida ou aceite - pode tornar-se um trampolim para se lançar nos braços de Deus, aquele Deus que tudo corrige e Se deixa descobrir mais como Redentor que como Criador” (n. 65).

(A redação deste ponto do Youcat parece-me pouco feliz. Destaca a "experiência dolorosa" de duas pessoas do mesmo sexo pelo facto de a sua união [física] ser necessariamente estéril, mas, ao contrário do Catecismo da Igreja Católica, não salienta a não conformidade e mesmo a grave dissonância dessa união em relação ao projeto divino para o ser humano, homem e mulher, tal como reiteradamente é transmitido na Sagrada Escritura e na doutrina da Igreja).

3) Este ‘desafio’, dirigido às pessoas homossexuais, a viverem em celibato, como caminho de santificação, não nega que o celibato livremente escolhido, como no caso do celibato sacerdotal, e a virgindade “pelo Reino dos Céus”, tenham um valor singular e até superior ao próprio matrimônio, como sempre considerou a tradição cristã, reiterada por João Paulo II na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, de 22 de Novembro de 1981, n. 16:

“Tornando livre de um modo especial o coração humano (cf. 1 Cor. 7, 32-35), «de forma a inebriá-lo muito mais de caridade para com Deus e para com todos os homens» (Conc. Ecum. Vat. II, Decreto sobre a renovação da vida religiosa Perfectae caritatis, 12), a virgindade testemunha que o Reino de Deus e a sua justiça são aquela pérola preciosa que é preferida a qualquer outro valor, mesmo que seja grande, e, mais ainda, é procurada como o único valor definitivo. É por isso que a Igreja, durante toda a sua história, defendeu sempre a superioridade deste carisma no confronto com o do matrimónio, em razão do laço singular que ele tem com o Reino de Deus (Cfr. Pio PP. XII, Carta Enc. Sacra Virginitas , II, 174 ss).

E é neste contexto que São João Paulo II, alude também, embora sem especificar as situações, aos que, contra a sua vontade, não se casaram:

“Estas reflexões sobre a virgindade podem iluminar e ajudar os que, por motivos independentes da sua vontade, não se puderam casar e depois aceitaram a sua situação em espírito de serviço” (Familiaris Consortio, 16).


[1] Cf. 1 Coríntios 7, 34; cf. Lumen Gentium, n. 42
[2] BENTO XVI, Luz do mundo, Lucerna, Cascais, 2010, p. 148.
[3] Sobre este assunto pode ler-se um estudo publicado no site Presbíteros, intitulado: “Homossexualidade e ministério ordenado”.
[4] PIO XII, Discurso A missão da mulher, 21 de Outubro de 1945. Tradução portuguesa em: A família, comunidade de amor e de vida, Secretaria Geral do Episcopado – Ed. Rei dos Livros, Lisboa, 1994, p. 354.
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-Obs: A tradução e as notas complementares do texto pertencem ao português  Padre José Manuel Santos Ferreira  do blog 'Ad te levavi', de onde extraímos este texto.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

[QSH] Palavras ofensivas dirigidas às pessoas com atração pelo mesmo sexo: virtude ou falta de caridade?


[Essa é uma questão que toca profundamente a todos os nossos irmãos e irmãs que desenvolveram, por motivos vários e involuntariamente, a atração pelo mesmo sexo (AMS), que em si não é pecado. A AMS é uma propensão objetivamente desordenada como aponta o Catecismo da Igreja Católica. No entanto, como outras propensões ou inclinações, não determina o caráter de uma pessoa, ou seja, é algo que ela possui, mas não algo que ela é. Quantos de nós, homens e mulheres com AMS, se viram, por incompreensão e falta de caridade de nossos parentes, colegas e mesmo amigos, reduzidos a expressões como (e perdoem-nos os leitores por colocar esses termos aqui, mas são mais do que necessários) viado, bicha, efeminado, sapatão, maricas e outros mais. Essas expressões feriram e ferem a todos aqueles que, procurando compreensão de sua tendência, acolhida (e não aceitação de eventuais situações de pecado) dentro da Igreja por parte de seus irmãos católicos, foram designados por tais chamativos. Jesus chamou os fariseus de raça de víboras por ver suas más intenções e sua persistência na maldade. Mas não chamou de prostituta à mulher do poço, à adúltera que iria ser apedrejada ou à própria prostituta arrependida. Por isso, mais do que oportuno é o seguinte texto, extraído da obra – elogiada por santos e papas – Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs, do Venerável Padre Afonso Rodrigues, da Companhia de Jesus. Este é um convite à reflexão para que todos os católicos que, muitas vezes, adotam uma misericórdia de aparência, pensem no quanto podem ter contribuído, voluntariamente ou não, para o isolamento de tantos irmãos com atração pelo mesmo sexo que, desejosos de aprender a levar uma vida de santidade e castidade, ansiosos por entender o ensinamento correto sobre a sexualidade e sobre sua condição, acabaram procurando na vida gay a acolhida não oferecida por seus próprios irmãos de fé.]


DEVEMOS TOMAR MUITO CUIDADO

COM AS PALAVRAS PICANTES

QUE POSSAM MOLESTAR OU DESGOSTAR A NOSSOS IRMÃOS



Em primeiro lugar, devemos tomar muito cuidado em dizer palavras picantes. Há algumas palavrinhas que costumam picar e ferir a quem se dizem, porque dissimuladamente fazem sobressair alguma condição, entendimento ou habilidade não tão desenvolvida, ou então alguma outra falta natural ou moral. Essas palavras são muito prejudiciais e muito contrárias à caridade; e algumas vezes se costumam dizer em tom de gracejo ou por brincadeira, e então são piores e mais prejudiciais, e tanto mais quanto com mais graça se dizem, porque ficam mais impressas nos ouvintes, que se lembram mais delas. E o pior é que, algumas vezes, sucede que a pessoa que as diz fica muito contente, parecendo-lhe ter dito algo muito perspicaz e ter mostrado boa inteligência, mas se engana muito; pois nesse seu falar só mostra ter mau entendimento e pior vontade, empregando o entendimento que Deus lhe deu para o servir em dizer ditos sagazes que ofendem e escandalizam a seus irmãos e perturbam a paz e a caridade.

Diz Santo Alberto Magno que, assim como quando uma pessoa tem mau hálito na boca é sinal que tem lá dentro o fígado ou o estômago estragado, assim também quando fala palavras más é sinal de enfermidade que há lá dentro do coração. E que diria São Bernardo do religioso que é mordaz nos gracejos? Se ele, a qualquer gracejo na boca do religioso, chama blasfêmia e sacrilégio, que nome dará aos gracejos que são prejudiciais?

Essas coisas são muito alheias à vida religiosa e, assim, tudo o que é relativo a isso deve estar muito longe da boca do religioso, por exemplo, tratar os outros por comparações ultrajantes ou apelidos, troçar, satirizar, fazer ou repetir versos engraçados que toquem na falta ou no descuido de alguém, e outras coisas semelhantes; não há razão para que tais coisas sejam permitidas, quer se digam por troça ou por brincadeira, quer se digam a sério. E cada um o julgará por si. Você gostaria que outra pessoa o tratasse por comparações ultrajantes e dirigisse a você alguma ironia, e que todos se rissem do quanto se encaixa em sua condição o que nela se diz? Pois o que você não quer que se use com você, não o utilize com os outros, pois essa é a regra da caridade. Você ficaria tranquilo quando, ao dizer uma palavra menos acertada, logo houvesse quem se prezasse a prestar atenção e dela fizesse um grande discurso, troçando de você? É certo que não. Pois, como é que você quer para os outros o que você não quer para si mesmo, já que você se sentiria e ficaria envergonhado se o fizessem com você? Pois, se só de falar em ironia, troça e comparação ultrajante ofendem e ficam mal na boca de um religioso, o que se dirá para os que as realizam! Por essa razão, temos de evitar isso ao máximo, tais palavras devem estar afastadas de nossa boca, como diz S. Paulo do vício da desonestidade: “A fornicação e todo o tipo de impureza nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a gente santa.” Da mesma maneira temos de considerar esses atos; e assim S. Paulo acrescenta em seguida: “Nem palavras torpes, nem palavras loucas, nem chocarrices [insolências] e graças impertinentes.”  (Ef 5, 3-4). Não condiz com a santidade que professamos, muito menos, citar essas coisas. Admiravelmente diz S. Bernardo: “Se das palavras ociosas havemos de dar conta a Deus no dia do juízo, o que será das que são mais do que ociosas?” Que será daquelas que ferem meus irmãos? Que será daquelas perniciosas?



(Texto extraído e adaptado, em razão da linguagem barroca, do Tratado Quarto – Capítulo X do livro Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs, do Venerável Padre Afonso Rodrigues, SJ)

sábado, 29 de julho de 2017

[AC] O Courage ensina a alegria da verdadeira amizade numa cultura de solidão


A amizade com Cristo implica em ouvir dEle a verdade sobre a nossa identidade e o Seu plano para nós, além de respondermos com liberdade e generosidade.



Publicado pelo Padre Philip Bochanski, diretor do Courage International, na página National Catholic Register


No mês de novembro passado, eu fui convidado pela Diocese de Orlando, Flórida, para falar aos padres e a outras pessoas que estão no ministério paroquial e diocesano. Acordei bem cedo no dia do evento para visitar o lugar da Pulse em Orlando, a boate “LGBT” onde um terrorista assassinou 49 pessoas e feriu muitas outras no último mês de junho. Fiquei cerca de meia hora lá a oferecer o Rosário pelo suave repouso daquelas vítimas, pela consolação daqueles que sobreviveram e por suas famílias, observando os memoriais improvisados que foram colocados no local.

As palavras humanas, muitas vezes, falham diante de uma tragédia sem sentido como o massacre na Pulse. Ainda, certas questões alfinetam o coração de um padre diante de tal cena: “O que eu teria feito se estivesse aqui? O que poderia ter feito? O que poderia dizer para aqueles que foram vitimados, discriminados pelo ódio para com as suas comunidades? Que consolação eu poderia oferecer para as suas famílias e amigos, para aqueles que estiveram de luto por eles? O que faço agora?”

Não foi fácil encontrar respostas naquela manhã, mas o resto das atividades do dia me apontou para a direção certa.

Minhas falas foram sobre como providenciar cuidado pastoral para os católicos que sentem atrações pelo mesmo sexo e para os seus familiares e entes queridos. Cuidado pastoral significa o cuidado de um rebanho, imitando o Bom Pastor que oferece a Sua vida pela Sua ovelha.

Embora o ministério pastoral não saiba o que fazer em todas as situações, sabemos o que o Bom Pastor faria. “Eu mesmo buscarei minhas ovelhas,” Ele diz. “Procurarei pela perdida e trarei de volta a que se desviou, curarei a ferida e fortalecerei a enfraquecida” (Ezequiel 34: 11 -16).

É claro, o cuidado pastoral toma como certo que há um rebanho que necessita do pastoreio, que necessita da busca, cura e fortalecimento. Isto não é pessimismo, mas realismo: O pecado original, escreveu Gilbert Keith Chesterton, é “um fato tão prático quanto batatas”, e suas consequências afetam ao mundo e a todos nele, todos os dias.

Todos nós crescemos em famílias imperfeitas, tivemos infâncias imperfeitas e formamos amizades imperfeitas. Temos uma compreensão imperfeita de nós mesmos e uma apreciação imperfeita dos dons de Deus. Temos um controle imperfeito sobre nossas mentes, corações e corpos, além de respondermos de forma imperfeita à vontade de Deus.

No entanto, a fé católica ensina outro fato inegável: ninguém precisa ser perfeito para ser amado por Deus. Pelo contrário: “Quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós” (Romanos 5, 8). O Perfeito sofreu por causa do imperfeito, “o Justo pelo injusto, para trazê-los para Deus” (1 Pedro 3, 18).

Essa realidade – que a felicidade nesta vida e na próxima dependem não da perfeição, mas da redenção – é o fundamento para o cuidado pastoral.

“Na vida, Deus acompanha as pessoas”, aconselha o Papa Francisco, “e devemos acompanhá-las, começando pelas suas situações.”

Ao acolher cada pessoa no Nome do Cristo, e ao compartilhar com elas a Boa Nova da salvação, assistimos seres humanos imperfeitos se esforçando pela felicidade perfeita que tem sua origem e destino em Deus.

A palavra chave aqui é esforçar-se: a vida cristã é uma jornada que procede em etapas: os primeiros cristãos eram conhecidos como aqueles que estavam "No “Caminho” (Atos 9, 2).

Um cristão não é um ser perfeito, mas um trabalho em andamento; ele progride ao adquirir as virtudes, que são bons hábitos que o apontam para a direção certa. Deus tem um plano para a vida humana que não é descarrilado ou tornado irrelevante pelo pecado ou pela imperfeição, e as virtudes orientam o coração, a mente, o corpo e a alma pelo caminho traçado pelo desígnio divino.

A virtude que direciona a profunda experiência da atração sexual e o desejo é a castidade. O mundo tem a tendência de recusar tal palavra, que conjura imagens de mosteiros estéreis vazios de emoção ou vitalidade. No entanto, o Catecismo propõe um caminho que guia para a liberdade e autoconhecimento.

“A castidade,” diz o Catecismo, “significa a integração bem sucedida da sexualidade dentro da pessoa e assim a unidade interna do homem em seu ser corpóreo e espiritual.” O resultado desta integração é que “a sexualidade... se torna pessoal e verdadeiramente humana,” situada no plano divino para as relações humanas (2357).

A castidade não reprime os sentimentos ou nega a realidade do desejo sexual. A castidade começa com a honestidade – “é assim que me sinto; é isso que eu quero” – mas não termina aí. O mundo diz, “Se eu sinto, devo fazê-lo”; a implicação é que todo desejo ou pensamento que uma pessoa deve ter é perfeito e completo em si mesmo.

A castidade é mais realista. Ela considera a origem e o alvo de um desejo sexual à luz da identidade e da história do indivíduo e da vocação e do plano de Deus para se chegar a uma boa decisão sobre se se deve ou não perseguir ou agir de acordo com um determinado desejo.

Uma pessoa virtuosa só perseguirá um desejo que é parte do plano de Deus para a sexualidade, na qual a intimidade sexual é ordenada e dirigida para o relacionamento que é permanente, fiel, baseado na complementariedade do homem e da mulher e aberto para a procriação da vida humana – isto é, o matrimônio.

Portanto, a castidade — que é um apelo universal a cada pessoa — é também a pedra angular da abordagem pastoral da Igreja Católica para as pessoas que sentem atrações pelo mesmo sexo. A característica de um "programa pastoral autêntico", segundo a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), é que ela honestamente enfrenta a verdade de que os atos homossexuais são imorais, pois não são ordenados à complementaridade e procriação que dão à união sexual seu significado e propósito. Mas se nossa prática pastoral parasse ali, seria lamentavelmente incompleta. Em vez disso, a CDF apela a uma "abordagem multifacetada" que ajude as pessoas a viver a castidade e a crescer "em todos os níveis da vida espiritual: através dos sacramentos ... oração, testemunho, conselho e cuidado individual".

Talvez o maior privilégio do meu sacerdócio tenha sido participar de tal abordagem do cuidado pastoral, primeiro como capelão do Courage na Arquidiocese de Filadélfia e agora como diretor do Courage International. A oportunidade de ser um verdadeiro pai espiritual para as pessoas que fizeram a escolha de buscar a castidade, muitas vezes à custa de serem mal compreendidas e até mesmo de perder amizades, transformou a minha compreensão do coração humano e a minha apreciação do que as pessoas são capazes de quando elas são motivadas e sustentadas pela graça.

Meu único arrependimento é que suas histórias não sejam contadas com mais frequência, pois elas testemunham a liberdade e a alegria que se encontram em um abraço sincero do plano de Deus.

Quando dou palestras como as apresentadas em Orlando no ano passado, elas sempre incluem testemunhos pessoais de membros do Courage, pessoalmente ou em vídeo. É de vital importância para os ministros da Igreja ouvir as experiências da vida real de pessoas que vivem com atrações do mesmo sexo, e estou feliz em preencher a lacuna que muitas vezes existe entre eles.

O testemunho mais pungente que eu ouvi veio de Bob, membro do Courage de longa data de Nova York, que disse: "Deus me ama e me deu uma Igreja para me ajudar a ter uma vida feliz".

Ele então compartilhou o segredo de sua felicidade: "[Deus] me deu uma Igreja que me ensina que a castidade é o caminho para a felicidade. E não é para me negar o prazer sexual; é para me abrir para ser uma pessoa mais feliz.”

Aqui está o cerne do ensinamento da Igreja e do cuidado pastoral que a Igreja propõe e espera.

A busca da virtude abre a pessoa à verdadeira felicidade, porque toda a virtude está enraizada na realidade do ser humano. Pessoas que tiveram um vislumbre dessa felicidade, e começaram a entender sua identidade como filhos e filhas criados à imagem de Deus, querem buscar as virtudes que os levarão à realização. Eles querem ouvir o que a Igreja tem a dizer, mesmo quando é difícil colocá-lo em prática. Isso significa "falar a verdade no amor" (Efésios 4, 15) sobre o significado da sexualidade humana e ajudar as pessoas a compreender e abraçar essa verdade. "Apartar-se do ensinamento da Igreja, ou silenciar sobre isso", escreveu o CDF, "em um esforço para providenciar o cuidado pastoral, não é cuidar, tampouco é pastoral".

Esses irmãos e irmãs querem mergulhar nos sacramentos, porque encontram ali o amor, a aceitação e a misericórdia incondicionais que só vem de Deus. Eles querem oportunidades para compartilhar suas histórias com pessoas que eles sabem que vão entendê-los, porque eles estiveram lá, e eles querem apoiar e encorajar uns aos outros.

Talvez, acima de tudo, eles queiram construir relacionamentos autênticos. No centro da resposta da Igreja à atração pelo mesmo sexo está o reconhecimento de que "amizades de vários tipos são necessárias para uma vida humana plena, e são igualmente necessárias para aqueles que tentam viver castamente no mundo", como os bispos dos Estados Unidos explicam [no documento Ministério para Pessoas com Inclinação Homossexual: Diretrizes para o Cuidado Pastoral].

A amizade casta não é um privilégio daqueles dentre nós que têm tudo isso em conjunto, mas é um direito desde o nascimento e uma característica definidora de cada discípulo.

"Eu os chamo de amigos", diz Jesus na Última Ceia, e Ele explica o que Ele quer dizer. "Eu vos chamei amigos, porque vos tenho revelado tudo o que ouvi de meu Pai" (João 15, 15), e "Vocês são meus amigos se fizerem o que Eu vos mando" (João 15, 14).

A amizade com Cristo significa ouvir a verdade dEle sobre a nossa identidade e seu plano para nós, respondendo a Ele com liberdade e generosidade. A amizade casta – baseada não em rótulos ou políticas de identidade, mas em uma busca comum de santidade e de todas as virtudes — é o princípio motriz do Courage e deve caracterizar todo ministério católico e ministro pastoral que se aproxima dessa comunidade.




domingo, 6 de março de 2016

[QSH] O celibato leigo: possibilidade de santificação ou falta de opção?

Para muitos que sentem atração pelo mesmo sexo, o celibato reveste-se com uma aparência de “condenação”, pois lhes tolheria a possibilidade de serem felizes junto com outra pessoa. Isso se deve, de certa forma, pela visão moderna de que a felicidade só se encontra quando se tem um parceiro romântico para satisfazer suas necessidades emocionais e sexuais. Seguindo em parte esse pensamento, muitos católicos enxergam como opção de vida apenas duas possibilidades: casamento ou vida consagrada (no sacerdócio ou na vida religiosa). O celibato leigo, vivido no mundo e sem votos, é assunto desconhecido, inexistente, senão impossível e impraticável. Os sermões que escutamos pouco falam da possibilidade de santidade para alguém que não se casou (seja por escolha, por não ter encontrado a pessoa correta, ou por algum impedimento, como a atração pelo mesmo sexo) e que tampouco optou pela vida consagrada no sacerdócio ou numa comunidade religiosa. Em conversas de amigos sempre há a referência ao homem ou mulher que é solteiro, que deve ser infeliz por causa de seu estado de vida. No entanto, o que fala realmente a Igreja sobre o celibato? Ele é restrito apenas a padres e religiosos? Nossa Igreja nunca ensinou sobre o celibato leigo, vivido no mundo e como forma de santificação?

O seguinte excerto, extremamente rico e mostrando exatamente o contrário do que a maioria pensa, foi extraído do texto preparatório para a catequese para o Encontro Mundial das Famílias, que se realizou na cidade da Filadélfia, nos Estados Unidos, em setembro de 2015, e teve como tema “O amor é a nossa missão – a família plenamente viva”. Nele é explicitado “todo o ensinamento católico sobre sexualidade, matrimônio e família, cuja fonte provém do conhecimento fundamental da pessoa de Jesus.” O texto fala por si mesmo, e o original completo pode ser encontrado aqui. Esperamos que, a partir dele, os sermões falem mais desse estado de vida tão rico quanto os outros; que, após sua leitura, os católicos que possuem uma concepção limitada dos estados de vida ampliem essa visão; e que, com sua reflexão, muitos irmãos com atração pelo mesmo sexo abracem, de forma alegre, o mesmo estado de vida dado como exemplo por Jesus e seguido por outros tantos santos, leigos ou não.




TODO AMOR DÁ FRUTO


Nem todos são chamados ao matrimônio. Mas toda vida é destinada a ser fecunda. Toda vida tem o poder e a necessidade de nutrir nova vida –se não for por meio da geração e criação de filhos, então por outros meios vitais de doação, realização de obras e de serviços.  A Igreja é uma família com diferentes vocações, cada uma distinta, mas cada uma necessita das outras e se apoiam mutuamente. O sacerdócio, a vida religiosa e a vocação do celibato laical enriquecem e são enriquecidos pelo testemunho do estado matrimonial.  As diferentes maneiras de ser casto ou celibatário fora do matrimônio são formas de doar a vida ao serviço de Deus e da comunidade humana.


A fecundidade espiritual do celibato



Beato Contardo Ferrini
Professor Universitário e Leigo Celibatário
91. Dois sacramentos da Igreja são os únicos dedicados “à salvação dos outros.” A Ordem e o Matrimônio “conferem uma graça especial para uma missão particular na Igreja em ordem à edificação do povo de Deus”.91

92. Em outras palavras, nem todos homens e mulheres precisam ser pais biológicos para irradiar o amor de Deus ou para fazer parte da “família de famílias” que conhecemos como sendo Igreja. A vocação para o sacerdócio, ou voto de vida religiosa, tem a sua própria integridade e honra. A Igreja sempre precisa de padres e religiosos, e os pais devem ajudar todos os seus filhos e filhas a estar atentos à possibilidade de que Deus possa estar chamando-os para oferecer a sua vida dessa forma.

93. Além disso, há muitos leigos celibatários que têm o seu próprio papel insubstituível na Igreja. A Igreja conhece muitas distintas maneiras de se viver o celibato, mas todas são, de uma forma ou outra, um chamado para servir a Igreja e fomentar a comunhão de modo a serem análogas à paternidade.

94. O celibato autêntico - seja leigo, ordenado ou consagrado — é orientado para a vida social e comunitária. Ser um “pai espiritual” ou “mãe espiritual” — talvez como membro do clero ou religioso, mas também como padrinho, um parente adotado, ou um catequista ou professor, ou simplesmente como mentor e amigo - é uma vocação estimada, algo essencial para uma comunidade cristã saudável e próspera.

95. São João Paulo II uma vez refletiu sobre as qualidades maternas de Madre Teresa, e, por extensão, sobre a fecundidade e a fertilidade espirituais da vida celibatária em geral:

É muito habitual chamar “madre” a uma religiosa. Mas em Madre Teresa este apelativo assumiu uma intensidade especial. Uma mãe conhece-se pela capacidade de se dar. Observar Madre Teresa no trato, nas atitudes, no modo de ser, ajudava a compreender o que significava para ela, além da dimensão puramente física, ser mãe; ajudava-a a chegar à raiz espiritual da maternidade.
Sabemos bem qual era o seu segredo:  ela estava cheia de Cristo e, por isso, olhava para todos com os olhos e o coração de Cristo. Tinha tomado a sério a sua palavra “Tive fome e destes-me de comer...” (Mt 25, 35) Por isso, não se cansava de “adotar” como filhos os seus pobres. O seu amor era concreto, empreendedor; levava-a onde poucos tinham coragem de chegar, onde a miséria era tão grande que provocava medo.
Não me admira que os homens do nosso tempo sejam atraídos e fascinados por ela. Pois encarnou aquele amor que Jesus indicou como distintivo para os seus discípulos: “Assim, todos saberão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13, 35).92

Vidas radiantes como a da Beata Teresa de Calcutá e São João Paulo II mostram que o celibato nas suas diversas variações pode ser uma maneira interessante, um belo caminho de vida.


A lógica e as possibilidades do celibato



São Giuseppe Moscati
Médico e Leigo Celibatário
96. Anteriormente nesta catequese, citando Santo Agostinho, vimos que a proposta de ter filhos não era apenas continuar a espécie ou construir uma sociedade civil, porém, cumular a cidade celestial com a alegria de uma nova vida. Esta distinção — entre a meta natural de procriação e a vocação teológica para se preparar para o Reino de Deus em plena realização — permite a Igreja fazer mais uma afirmação: para cumprir o seu destino como homens e mulheres, todas pessoas podem ser fecundas, mas nem todos precisam se casar.

97. A Igreja oferece o casamento como uma vocação, uma possibilidade; por isso não pode ser uma lei ou um requisito para uma realizada vida católica.93 Segue-se, então, que o celibato precisa existir na vida social da Igreja para que o casamento seja uma questão de liberdade em vez de impulso. Se existe de fato mais de uma maneira de ordenar a própria vida sexual, a masculinidade ou a feminilidade em relação à vida eterna, o celibato é esta alternativa. “A família é a vocação que Deus inscreveu na natureza do homem e da mulher, mas existe outra vocação complementar ao matrimônio: o chamamento ao celibato e à virgindade pelo Reino dos céus. Foi a vocação que o próprio Jesus viveu.”94

98. Celibato e casamento não competem um com o outro. Mais uma vez, como Santo Ambrósio ensinou: “nós não louvamos nenhum para a exclusão dos outros... Isto é o que faz a riqueza da disciplina da Igreja”.95 Celibato e matrimônio são vocações complementares, pois ambos proclamam que a intimidade sexual não pode ser testada.96 Tanto celibatários como pessoas casadas respeitam a estrutura do amor da aliança e evitam o “teste” ou a intimidade condicional.97 Tanto o celibato como o casamento rejeitam o sexo no contexto chamado pelo Papa Francisco de “cultura do descartável.”98 Tanto o celibato como o casamento rejeitam relações sexuais condicionadas meramente na satisfação de desejos eróticos.

99. Observar a disciplina do celibato ou a do casamento são dois caminhos para homens e mulheres estarem em solidariedade um com o outro e evitarem servir só aos desejos sexuais.  Celibato e casamento são as únicas duas maneiras de vida que convergem com a conclusão de que o casamento é a forma plenamente humana para atos da procriação, à luz da imagem de Deus que habita em nós e molda as nossas vidas. O celibato — que não só inclui padres e religiosos consagrados, porém todos que são castos fora do matrimônio — é o modo de vida de pessoas que não são casadas, mas que honram com as alianças.

100. Tudo o que a Igreja tem ensinado sobre ser criado para a felicidade, sobre ser criado à imagem de Deus, sobre precisar amar e ser amado, serve tanto para as pessoas celibatárias quanto para as que são casadas. O celibato pode ser confirmado e permanente, como no caso da vida religiosa consagrada, ou no caso de alguém incapaz de se casar por causa de deficiência ou outra circunstância, ou pode ser só potencialmente permanente, como no caso de uma pessoa jovem discernindo sua vocação. Em todos estes casos, o celibatário segue os passos de Jesus, amadurecendo, oferecendo o seu “eu” a Deus, confiando no seu plano e construindo uma vida baseada no amor para com os outros com piedade, paciência generosidade e serviço.

101. Em qualquer sociedade, muitos serão marginalizados se o casamento é visto como obrigatório, como se fosse preciso ter um parceiro romântico para ser completo. O celibato na Igreja rebela-se contra esta ideia enganosa. Por exemplo, viúvas muitas vezes são deixadas de lado em sociedades tradicionais, e pessoas solteiras em sociedades modernas frequentemente socializam-se em clubes, pubs e bares onde a promiscuidade é comum. Criar espaço alternativo, onde as pessoas que não são casados possam experimentar a felicidade e ter uma missão, é uma significativa hospitalidade, algo que cristãos precisam empreender uns para com os outros como forma de libertação e acolhimento. 

102. Algumas pessoas querem se casar, mas não conseguem achar um cônjuge, devido a circunstâncias alheias à sua vontade. Uma vida de esperança e espera não significa abandono a uma existência estéril. Quando se vive em prontidão ativa à vontade de Deus ao modo como esta vontade se desenvolve na história pessoal de cada um, fazendo do “faça-se” de Maria o seu próprio, bênçãos poderão advir.99 Assim como todos são chamados a dar e receber amor, como o amor cristão é voltado para fora, o celibato é uma prática de comunhão. Quando nos amamos uns aos outros castamente fora do casamento, o fruto é a amizade: “A virtude da castidade expande-se na amizade [...]. A castidade exprime-se especialmente na amizade para com o próximo. Desenvolvida entre pessoas do mesmo sexo ou de sexos diferentes, a amizade representa um grande bem para todos. Conduz à comunhão espiritual.”100 

103. Celibatários — e de forma limitada, mas análoga, os casais inférteis — também desfrutam de uma liberdade única, uma liberdade atrativa para certos tipos de serviço, amizade e comunidade. Celibatários e sem filhos são relativamente mais disponíveis para a experiência casta na vida em comunidade, para carreiras que exigem flexibilidade, para oração e contemplação. Os celibatários, casais sem filhos, pessoas idosas, mesmo saudáveis (talvez com filhos adultos) têm benefícios relacionados ao tempo que muitos pais normalmente não têm. Essas pessoas podem se dedicar ao trabalho catequético e a outros ministérios paroquiais, e até apostolados e testemunhar em situações perigosas o que seria impossível para famílias com filhos. Os solteiros ou os casais sem filhos desfrutam de uma disposição que lhes dá mais discrição e criatividade com relação às possibilidades de hospitalidade e amizade. Quando São Paulo aconselha o celibato, pensa estar propondo uma possibilidade que tem os seus desafios, mas também tem os seus benefícios e liberdades: “Se, porém, casares, não estarás pecando. E, se a virgem se casar, não peca. Mas as pessoas casadas terão as tribulações da vida matrimonial, e eu gostaria de poupar-vos isso. Eu gostaria que estivésseis livres de preocupações. Gostaria de vê-los livres de preocupações.” (1Cor 7, 28 e 32a)


A aliança espiritual e social entre celibato e casamento



Beato Bartolo Longo
Leigo Celibatário
104. O Catecismo da Igreja Católica diz que “todos os fiéis de Cristo são chamados a viver uma vida casta de acordo com seus estados particulares de vida. No momento do seu Batismo, o cristão se compromete a viver a sua vida afetiva em castidade”.101 O celibato, portanto, é aliado ao casamento, fazendo semelhante oferecimento interno de si mesmo ao Senhor. Tanto pessoas celibatárias como casadas comprometem a sua vida por meio da aliança com Deus de acordo com as suas respectivas vocações. Existem diferenças práticas na vocação de cada indivíduo particular, mas o movimento interno da alma, o próprio oferecimento do coração, é semelhante em seu núcleo. Celibatários e cônjuges maduros estão familiarizados, de modo sábio, com muitas das mesmas habilidades espirituais.

105. No caso do casamento, quando esposos e esposas se doam um ao outro, com um amor que imita Jesus, o dom mútuo de si mesmo é parte da obra de Cristo, se unindo ao mesmo espírito de doação do próprio Jesus à Igreja. Quando os cônjuges trocam os seus juramentos na Igreja, na sua liturgia de casamento, Cristo recebe o seu amor nupcial e faz com que seja parte do seu próprio dom eucarístico de si para a Igreja e para o Pai que, glorificado com o sacrifício do Filho, concede o Espírito Santo aos cônjuges para selar a sua união.102 A nupcial fecundidade, assim, é antes de tudo o dom e a tarefa do vínculo sacramental. É exatamente por isso que São João Paulo II disse, de modo belo, que o vínculo nupcial que aos cônjuges foi dado para desfrutar e viver faz deles “a lembrança permanente para a Igreja do que aconteceu na Cruz; são para eles mesmos e para os filhos testemunhas da salvação da qual o sacramento os faz participar”.103

106. No caso de celibato, um raciocínio semelhante é possível. O amor de Cristo é continente porque faz dele mesmo uma doação total; uma afirmação incondicional do outro “o que o homem poderá dar em troca da sua vida?” (Mt 16, 26) O amor de Cristo é expresso no seu desejo de compartilhar tudo de si com os seus discípulos (cf. Lc 22, 15), para dar-se totalmente a eles e trazer a todos de volta ao Pai e compartilhar a própria glória de Deus.104 O amor matrimonial é a lógica da aliança que define o modo como procriamos; amor celibatário é a lógica da aliança vitalizada na comunidade inteira.

107. Como casamento e celibato são vocações complementares para adultos católicos, deveríamos criar os nossos jovens para perceber que um parceiro romântico não é essencial para a felicidade humana. Se o casamento em si toma forma de aliança de Jesus conosco, e se esta aliança também cria a possibilidade, então a vida de jovens que não são casados é melhor compreendida, não em termos de namoro ou relacionamentos esporádicos, mas como um tempo de discernimento e cultivo de amizades. Os hábitos e habilidades de verdadeira amizade são básicos para a vida, tanto no casamento como em comunidades celibatárias. A questão sobre a vocação que adolescentes e outros jovens enfrentam hoje em dia precisa envolver mais do que preferência romântica. Os jovens precisam adquirir certas habilidades internas espirituais, independentemente do que sua vida futura lhes reserva.

108. Por esta razão, as paróquias deveriam prestar muita atenção à dimensão social da castidade e do celibato. O celibato impõe desafios únicos, e, como o Catecismo da Igreja Católica observa, aprender o autodomínio sexual implica um aspecto cultural: somos pessoas independentes, e viver a castidade pode tanto ser facilitado como impedido pela nossa situação social.105 As possibilidades de vida que os jovens pensam ser imagináveis dependem dos exemplos que veem e das histórias que ouvem.

109. Como o celibato é tão “contracultura”, existe ainda o risco de que, mesmo nas paróquias, não seja completamente entendido. Pessoas solteiras “merecem, portanto, a estima e a solicitude atenta da Igreja, particularmente dos pastores.”106 Não só os pastores, mas também a família e as pessoas solteiras deveriam dar passos concretos para garantir que “solteiro”, no contexto católico, claramente não é o mesmo que solitário ou isolado. Pessoas solteiras precisam de comunhão para compartilhar os seus fardos e tristezas, bem como a responsabilidade e a oportunidade de serviço. “Mas a todas é necessário abrir as portas dos lares, ‘igrejas domésticas’, e da grande família que é a Igreja devem estar abertas” para os não casados.”107

110. Esta visão sugere uma necessidade para todos examinarem como se contribui para a atmosfera e a essência da vida paroquial. Se os pais desencorajam os filhos ao sacerdócio, à vida religiosa consagrada, ou a outras vocações celibatárias, então a comunidade inteira deveria examinar a sua consciência.  O celibato autêntico sempre é ricamente social, e se o celibatário é visto como unicamente solitário ou alienado, então algo na prática ou na estrutura da vida da comunidade está errado. Os celibatários devem tomar iniciativas para servir e envolver-se, e as famílias devem tomar medidas para ser hospitaleiras, para adotar “tias” e “tios” e para ser inclusivos na construção de famílias ampliadas ou comunidades intencionais.

111. Uma rica vida social faz todo tipo de celibato mais plausível para o mundo, porque enfraquece a crítica do celibato que diz que semelhante vida é inevitavelmente solitária. Para assumir esta visão, para superar a inércia dos hábitos sociais que segregam solteiros e negligenciam as oportunidades do celibato, exige-se um compromisso criativo, tanto por parte de leigos como do clero. Jesus é o nosso Senhor, e o Senhor diz que “através deste testemunho todos reconhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros.” (Jo 13, 35). O amor deve visivelmente animar a vida paroquial para todos.

112. O Celibato não é estéril, nem é “solteiro” no sentido de isolado ou autônomo. Na Igreja, todos somos interdependentes, criados para a comunhão, criados para dar e receber amor. Esta visão da vida humana gera inesgotável variedade de vocações criativas. O celibato possui exigências únicas para aqueles que o adotam, mas celibatários também têm privilégios e oportunidades únicas. Celibatários respeitam o potencial sexual ou biológico do casamento, e agem a partir de uma semelhante lógica e doação espiritual. Os celibatários e casais casados precisam um do outro para sustentar e crescer a “família de famílias” que é chamada Igreja.


ABREVIAÇÕES

CIgC, Catecismo da Igreja Católica
CCIgC, Compêndio do Catecismo da Igreja Católica
FC, Familiaris Consortio

NOTAS

91. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (CCIgC) (2005), 321
92. Papa João Paulo II, Discurso “Encontro das famílias adotivas organizado pelas Missionárias da Caridade” (5 de setembro de 2000)
93. Cf. 1Cor 7,25-40.
94. Papa Francisco, Discurso “Encontro com os jovens da Região da Úmbria” Assis (4 de outubro de 2013).
95. CIgC, 2349, citando St. Ambrósio, De viduis 4.23
96. Cf. CIgC, 1646. Veja-se acima n. 58.
97. Cf. CIgC, 2391. Veja-se acima n. 58.
98. Veja-se acima n. 60.
99. Cf. Lc 1, 38.
100. CIgC, 2347.
101. CIgC, 2348.
102. CIgC, 1624.
103. FC, 13
104. Cf. Jo 1,14; 17, 24.
105. CIgC, 2344.
106. CIgC, 1658.
107. CIgC, 1658.